Falar sobre saúde mental da mulher é um desafio que envolve muito mais do que o indivíduo. Envolve a estrutura da sociedade, a cultura, o momento histórico em que vivemos, a conjuntura política, as questões socioambientais, a influência religiosa — tudo aquilo que nos atravessa enquanto coletivo
Mas hoje, dentro desse cenário amplo, quero focar um pouco mais no sujeito, na saúde mental da mulher enquanto indivíduo. E aí surge uma pergunta importante: é possível falar sobre “a mulher”?
Como diz Guacira Louro, doutora em educação e pesquisadora de gênero, “não existe a mulher, mas várias e diferentes mulheres que não são idênticas entre si, que podem ou não ser solidárias, cúmplices ou opositoras”.
Ainda assim, sabemos que existem cobranças sociais coletivas sobre ser mulher: a exigência de estar sempre disponível para cuidar, de não poder parar, de dar conta das demandas do lar, da maternidade, da profissão e dos relacionamentos; de estar sempre bela, no peso ideal, com a aparência certa.
Mas, apesar dessas cobranças serem coletivas, somos diversas. Somos atravessadas por marcadores como classe social, raça, cor, orientação sexual, identidade de gênero, deficiências, religião, entre tantos outros. Esses atravessamentos marcam profundamente nossa realidade, nossas escolhas e também a forma como diferentes violências nos atingem.
E quando estreitamos ainda mais esse recorte e falamos das mulheres trabalhadoras da educação, entramos em um universo atravessado por uma responsabilidade enorme: a de preparar cidadãs e cidadãos para a vida em sociedade.
Que responsabilidade é essa.
Aqui estou falando de todas as mulheres que trabalham na educação: a que educa, a que ensina, a que limpa o espaço, a que prepara o alimento, a que coordena, a que garante a segurança. Todas essas mulheres compartilham a missão de sustentar, cotidianamente, um espaço que forma pessoas.
E é impossível não pensar na saúde mental dessas profissionais.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, saúde mental é “um estado de bem-estar no qual o indivíduo reconhece suas habilidades, consegue lidar com os estresses normais da vida, trabalha de forma produtiva e contribui para sua comunidade. Não é apenas a ausência de doenças, mas um equilíbrio emocional e social, sendo um direito humano fundamental”.
Diante da nossa conjuntura sociocultural e política, dos atravessamentos que recaem sobre os corpos das mulheres e da tarefa exigida das trabalhadoras da educação, eu pergunto: é possível alcançar esse equilíbrio emocional e social? É possível lidar com os chamados “estresses normais da vida”?
Cada mulher carrega sua própria história e sua própria demanda. Penso naquela mulher que enfrenta dificuldades financeiras, na que vive um relacionamento abusivo, na mulher que é mãe solo, na mãe atípica, na mulher que simplesmente não está conseguindo lidar com os desafios da própria vida.
E, além disso, do ponto de vista institucional, essa mulher pode estar sofrendo assédio moral e/ou sexual no trabalho, pode se sentir pressionada pela instituição, pelas famílias dos alunos ou pelo próprio ambiente profissional.
Muitas vezes, esse sofrimento acontece em silêncio. Um silêncio que, muitas vezes, nem é totalmente consciente. A mulher sofre sem saber exatamente que está adoecendo ou mesmo onde buscar ajuda.
Do ponto de vista da psicanálise, o silêncio não é neutro. Ele adoece.
Na clínica, vemos com muita frequência o corpo falando aquilo que não pôde ser dito.
Esse silêncio pode se transformar em sintomas: dores físicas, adoecimentos recorrentes, burnout, quadros depressivos, ansiedade extrema.
Nós, mulheres, somos historicamente educadas para o cuidado — e também para silenciar a nossa dor.
E aí eu deixo algumas perguntas: Quem cuida dessas mulheres que não conseguiram alcançar esse equilíbrio emocional e social? Quem as acolhe quando precisam ser ouvidas? O que tem sido feito, institucionalmente, para que esse cuidado exista? Quais são as estratégias reais para lidar com essas demandas?
Recentemente, tivemos atualizações importantes na NR1, que estabelece diretrizes para a segurança e a saúde no trabalho. Essas atualizações passam a incluir também a saúde mental e a prevenção dos chamados riscos psicossociais.
Isso significa que a saúde mental deixa de ser algo opcional ou individual e passa a ser uma responsabilidade institucional. As empresas e instituições têm o dever de prevenir o adoecimento mental, combater o estresse excessivo, o assédio moral, o assédio sexual e a sobrecarga de
trabalho.
Para você que é trabalhadora da educação e se sente sobrecarregada, emocionalmente exausta, mais triste do que o habitual ou mesmo vivendo situações de assédio, é importante saber: você não está sozinha.
Buscar ajuda profissional é um passo fundamental. Uma profissional da saúde mental pode te acolher, te orientar, te ajudar a compreender o que está acontecendo e, quando necessário, formalizar encaminhamentos, laudos ou relatórios. Uma advogada pode orientar sobre os caminhos legais possíveis. O sindicato existe para te amparar e lembrar que esse sofrimento não é individual, nem isolado.
No mês de janeiro, falamos sobre o Janeiro Branco e o cuidado com a saúde mental. Em setembro, sobre o Setembro Amarelo e a prevenção ao suicídio. Mas que não precisemos de datas específicas para lembrar da importância da saúde mental das mulheres trabalhadoras da educação.
Cuidar da saúde mental dessas mulheres não é favor — é responsabilidade coletiva, institucional e política.
Que vocês não sejam silenciadas.
Que suas palavras sejam ferramenta no seu processo.
E lembrem-se: usar a própria voz também é um gesto de cuidado e de resistência.
(Participação na live: “Saúde mental da mulher trabalhadora da educação – assédio, violências e estratégias de prevenção e combate”, em 27 de janeiro de 2026)